É chegada a hora. Ela já deve estar lá. Quando chegar, não vou perder o foco; vou direto ao assunto. Mas... Primeiro preciso de um assunto. Acho que vou falar sobre a praça, afinal, é o único lugar em comum entre nós. Aquele nome causa risos em qualquer um. Por que diabos alguém colocaria o nome de uma praça tão bonita e frequentada de Jão Negro? Quem foi esse tal de Jão Negro? E por que Negro? Racismo não é crime? E, cá entre nós, é Jão ou João? Não sei se foi burrice ou sarcasmo. Acho que este não é um bom assunto. É melhor eu ir logo, antes que eu perca o ônibus; o único que tem elevador para cadeirantes. É incrível como pode ter só um ônibus com acessibilidade em uma cidade com mais de 30 mil habitantes. Isso é lamentável. Ainda bem que ela não passa por isso, sua família tem carro. Na verdade, carros; todos devidamente adaptados para pessoas como nós. Enfim! Já passa das 17:00, é melhor eu ir andando. (Risos) Que piada sem graça!
O ônibus se aproxima. É o melhor motorista da linha que está no volante: Seu Zé! Quando ele me vê na parada, nem preciso estender a mão, ele logo para. Seu Zé é um ótimo amigo.
- Boa tarde, Seu Zé!
- Boa tarde, Paulinho! Tudo bem?
- Tudo ótimo.
- Precisa de uma ajudinha aí com essa máquina?
- Só preciso que me ajude a subir no elevador; o restou, pode deixar comigo.
- Cabra Macho! É assim que eu gosto de ver. Não esqueça dos cintos.
- Cintos de segurança colocados com sucesso, Seu Zé. Pode zarpar!
- Beleza! Vai para a praça Jão Negro de novo?
- Vou sim, estou encantado com uma de suas frequentadoras.
- Hum... Sei... Cuidado com essas encantadoras, às vezes elas só querem realmente nos encantar.
- Mas essa não, Seu Zé. Ela é especial. É diferente.
- Cadeirante?
- Sim. Respondi, olhando para o chafariz da praça, pela janela do ônibus, para ver se ela já estava lá.
- Ótimo! Chegamos! Consegue descer?
- Sem dúvidas! Até mais, Seu Zé.
- Até logo, Paulinho. Cuidado, não fique correndo atrás dessas encantadoras (risos).
- (risos).
Nunca pensei que um dia fosse sentir tanto medo em falar com alguém. Mal cheguei na praça e já estou com um enorme frio na barriga. Sem falar nas tremedeiras; pareço mais um esquimó pelado dentro de um iglu.
Quando olhei pela janela do ônibus, não consegui vê-la. Temo por ela não te vindo hoje. Mas ela sempre vem todos os sábados. Nunca presenciei um sábado que faltasse. Vou procurá-la. Talvez algumas pessoas a tenham visto.
- Boa tarde, dona Zaíra!
- Boa, meu filho.
- A senhora viu a Luana por aqui hoje?
- Quem é Luana, meu anjo?
- Uma menina, cadeirante como eu, cabelos lisos, gosta de usar fones de ouvidos, sempre usa vestido, muitas vezes floridos... A senhora a viu?
- Ah! Lembrei. Você fala da Luluzinha!
- Luluzinha?
- Sim, ela vem todas as tardes aqui para tomar um suco de caju com biscoitos integrais.
- Ela veio hoje?!
- Infelizmente não, meu filho. Acredito que ela não virá nos próximos dias, pois está doente.
- Doente?! Como? O que ela tem?
- Não sei ao certo. Quando esteve aqui pela última vez, na quinta-feira, estava muito pálida e tossia bastante.
- Nossa! Eu não sabia disso. Muito obrigado, dona Zaíra.
- Por nada, meu anjo. Tenha uma boa tarde.
Puxa vida! Ela não veio hoje e ainda por cima está doente. E o pior é que não posso fazer nada. Não sei onde ela mora; só sei que é do outro lado da cidade. Mas não posso ficar aqui parado. Tenho que fazer alguma coisa!
Já sei! Vou esperar o Seu Zé voltar da rota, com certeza ele me levará até lá e me ajudará a encontrar a casa da Luana. Se bem que ele só volta às 18:00. Mas vale à pena esperar. É por uma boa causa.
Já sei! Vou esperar o Seu Zé voltar da rota, com certeza ele me levará até lá e me ajudará a encontrar a casa da Luana. Se bem que ele só volta às 18:00. Mas vale à pena esperar. É por uma boa causa.
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