quarta-feira, 12 de agosto de 2015

MONÓLOGO A DOIS: (Parte 2) - A decisão.

Hoje é sábado. Passei a semana inteira esperando por este dia. Hoje é o dia em que a coragem me tomou e decidi falar com Luana. Tomara que ela vá hoje. Confesso que ainda sinto muito medo; talvez vergonha. Fico melindroso por temer que nossa amizade possa acabar antes mesmo de começar. Aff! Que amizade?! Nós nunca nos falamos mesmo! Mas hoje estou decidido. Vou falar com ela.
É chegada a hora. Ela já deve estar lá. Quando chegar, não vou perder o foco; vou direto ao assunto. Mas... Primeiro preciso de um assunto. Acho que vou falar sobre a praça, afinal, é o único lugar em comum entre nós. Aquele nome causa risos em qualquer um. Por que diabos alguém colocaria o nome de uma praça tão bonita e frequentada de Jão Negro? Quem foi esse tal de Jão Negro? E por que Negro? Racismo não é crime? E, cá entre nós, é Jão ou João? Não sei se foi burrice ou sarcasmo. Acho que este não é um bom assunto. É melhor eu ir logo, antes que eu perca o ônibus; o único que tem elevador para cadeirantes. É incrível como pode ter só um ônibus com acessibilidade em uma cidade com mais de 30 mil habitantes. Isso é lamentável. Ainda bem que ela não passa por isso, sua família tem carro. Na verdade, carros; todos devidamente adaptados para pessoas como nós. Enfim! Já passa das 17:00, é melhor eu ir andando. (Risos) Que piada sem graça! 
O ônibus se aproxima. É o melhor motorista da linha que está no volante: Seu Zé! Quando ele me vê na parada, nem preciso estender a mão, ele logo para. Seu Zé é um ótimo amigo.
- Boa tarde, Seu Zé!
- Boa tarde, Paulinho! Tudo bem?
- Tudo ótimo. 
- Precisa de uma ajudinha aí com essa máquina?
- Só preciso que me ajude a subir no elevador; o restou, pode deixar comigo.
- Cabra Macho! É assim que eu gosto de ver. Não esqueça dos cintos.
- Cintos de segurança colocados com sucesso, Seu Zé. Pode zarpar! 
- Beleza! Vai para a praça Jão Negro de novo?
- Vou sim, estou encantado com uma de suas frequentadoras.
- Hum... Sei... Cuidado com essas encantadoras, às vezes elas só querem realmente nos encantar.
- Mas essa não, Seu Zé. Ela é especial. É diferente.
- Cadeirante?
- Sim. Respondi, olhando para o chafariz da praça, pela janela do ônibus, para ver se ela já estava lá. 
- Ótimo! Chegamos! Consegue descer?
- Sem dúvidas! Até mais, Seu Zé.
- Até logo, Paulinho. Cuidado, não fique correndo atrás dessas encantadoras (risos).
- (risos).
Nunca pensei que um dia fosse sentir tanto medo em falar com alguém. Mal cheguei na praça e já estou com um enorme frio na barriga. Sem falar nas tremedeiras; pareço mais um esquimó pelado dentro de um iglu. 
Quando olhei pela janela do ônibus, não consegui vê-la. Temo por ela não te vindo hoje. Mas ela sempre vem todos os sábados. Nunca presenciei um sábado que faltasse. Vou procurá-la. Talvez algumas pessoas a tenham visto.
- Boa tarde, dona Zaíra!
- Boa, meu filho.
- A senhora viu a Luana por aqui hoje?
- Quem é Luana, meu anjo?
- Uma menina, cadeirante como eu, cabelos lisos, gosta de usar fones de ouvidos, sempre usa vestido, muitas vezes floridos... A senhora a viu? 
- Ah! Lembrei. Você fala da Luluzinha!
- Luluzinha?
- Sim, ela vem todas as tardes aqui para tomar um suco de caju com biscoitos integrais. 
- Ela veio hoje?!
- Infelizmente não, meu filho. Acredito que ela não virá nos próximos dias, pois está doente.
- Doente?! Como? O que ela tem?
- Não sei ao certo. Quando esteve aqui pela última vez, na quinta-feira, estava muito pálida e tossia bastante.
- Nossa! Eu não sabia disso. Muito obrigado, dona Zaíra.
- Por nada, meu anjo. Tenha uma boa tarde. 
Puxa vida! Ela não veio hoje e ainda por cima está doente. E o pior é que não posso fazer nada. Não sei onde ela mora; só sei que é do outro lado da cidade. Mas não posso ficar aqui parado. Tenho que fazer alguma coisa!
Já sei! Vou esperar o Seu Zé voltar da rota, com certeza ele me levará até lá e me ajudará a encontrar a casa da Luana. Se bem que ele só volta às 18:00. Mas vale à pena esperar. É por uma boa causa.

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