segunda-feira, 31 de agosto de 2015

AQUELES OLHOS DESCONHECIDOS

Eram 08:30 da manhã. Segunda-feira. os dois primeiros horários eram de Materiais de Construção. Eu não poderia faltar. Infelizmente, naquela manhã, tive que levar o carro na oficina, para a correção de algumas avarias que havia identificado ainda naquela semana. Pneus desalinhados, lataria suja, freio falho, eram algumas das características do Gol 1.6, modelo 95 que me fizeram perder, naquele dia, o horário do ônibus. Ele passava, pontualmente, todos os dias, às 06:30, em um ponto de ônibus a duas quadras de minha casa. Quase surtei quando olhei para o relógio do celular e vi que estava marcando 06:45. Fiquei naquela parada por quase 30 minutos, esperando, com esperança, assistir, pelo menos, ao segundo horário daquela aula. Infelizmente não consegui; cheguei ao campus depois das 08:00.
Para minha felicidade, a biblioteca já estava aberta. Não medi esforços em adentrar e, como de costume, sentei em umas das messas daquele lugar e, como que num rompante desesperador, saquei da mochila um notebook, Samsung, modelo RV 415, azul escuro, a fim de escrever algumas prosas em meu blog particular que, devido à divulgação de textos autoriais, ganhou amplo destaque na comunidade estudantil.
Pouco depois do intervalo, aproximadamente às 09:00, notei, em meio ao silêncio discreto daquela mediana área de estudos, sob os leves cliques dos alunos que manejavam com destreza os computadores daquela sala, uma menina sentada em um dos cantos, próximo ao armário porta-mochilas, solitária, em uma mesa redonda, com o rosto literalmente fixado em um livro cujo o assunto parecia bastante atraente, mesmo que sua expressão facial não demonstrasse qualquer reação ao dedilhar as páginas daquela leitura aparentemente monótona.
Saia preta, de cetim; blusa cinza, de algodão, sem mangas; cabelos pretos, lisos e presos com uma piranha cor de rosa; sandálias estilo rasteirinhas, na cor amarelo queimado; pele clara e semblante razoavelmente feliz, com olhos negros, até então desconhecidos. Parecia, em relação às pessoas que ali estavam - incluindo a mim - uma princesa. Era linda. Fiquei tentando, muitas vezes, a ir até ela, perguntar seu nome, mas achei que seria muito escroto fazê-lo. Talvez perguntar qual seu curso seria menos sutil; ou, quem sabe, questioná-la sobre o livro que estava lendo... Oportunidades era o que não faltava para puxar assunto com aquela menina. Mas mantive-me ereto em minha postura de cidadão secundarista, para não levantar rumores sobre heresias ou, para muitos, pedofilia, afinal, ela aparentava ter uns 16 ou 17 anos, ao passo que minha idade já passava dos 20. Cheguei, confesso, a pensar em ir por minha mochila no guarda-volumes, atrás dela, só para ver sua reação, mas me contive, para não provocar mausoléus desnecessários.
Havia algo naquela garota que me deixava intrigado. Talvez a maneira como seus olhos brilhavam ao percorrer as palavras grafadas naquele livro, a maneira como estava sentada: pernas juntas, coluna reta, cabeça levemente reclinada para baixo... Não sei o que mais me chamava a atenção: se a menina, como todas a sua beleza interior diferenciada ou o conteúdo misterioso daquele livro, que, curiosamente, lhe prendia desairosamente.
Passados alguns minutos, chega uma amiga; provavelmente sua irmã, pois a semelhança entre ambas era magnânima. No entanto, aquela, cujo  livro fazia-se como alimento, esbanjava mais beleza e harmonia pelo ambiente. Parecia até um anjo; mas aquela não era uma comparação muito justa de se fazer, afinal, anjos não seriam tão belos quanto ela.
Embora eu quisesse muito falar com ela, e em meu íntimo já tivesse tomado coragem para aquilo, fui impedido, pois sua irmã, como que num furacão impetuoso, a levara consigo para fora da biblioteca. Seu perfume, algo como uma coletânea de rosas frescas, pairava sobre a atmosfera daquela biblioteca. Infelizmente, viverei acreditando que aquela que fez, mesmo que por alguns segundos, meu miocárdio pulsar mais forte, não existe mais entre nós, entre mim, pois jamais terei a oportunidade de vê-la novamente, com aquele livro, aquela roupa, aqueles olhos; olhos desconhecidos. Apenas guardarei aquelas lembranças em minha memória, para mim mesmo, resguardando-as dos curiosos da contemporaneidade. Talvez, pensei, eu publique esta história em meu blog, para que outros possam, assim como eu, conhecer a beleza em pessoa, embora não possam tocá-la, tê-la, vê-la.
      

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