sábado, 11 de abril de 2015

LIBERDADE À VIDA

As vigas tremiam, os pilares balançavam, as cadeiras pulavam como se suas pernas fossem reais. Foi assim que começou a grande e catastrófica queda da sala da turma de Edificações do primeiro ano, uma das poucas salas mais bem estruturadas do campus.
Enquanto uns gritavam, outros tiravam as bolsas do lugar; houve quem rasgasse os cadernos. Foi um verdadeiro "Deus nos acuda". Nunca tinha visto tamanha balbúrdia. Foi a maior discrepância às normas da escola já vista em 100 anos. 
Quando cheguei, confesso que achei estranho não encontrar ninguém na sala. Estavam todos na secretaria. Foram cerca de dez homens para conter os 40 alunos que, eufóricos, quebravam tudo quanto viam adiante. O motivo era, misteriosamente, desconhecido. 
Como um bom líder, fui ao encontro da solução para que houvesse, efetivamente, uma sanalização do problema. Demorei bastante para encontrar uma vertente plausível para apresentar às autoridades competentes, a fim de liberar a turma do confinamento, da punição.
Na busca incessante pelo estopim da rebelião, encontrei uma testemunha. Segundo ele, tudo se deu por conta da proibição do professor, aos alunos, de usufruírem do intervalo. Não contente com a situação, começaram a depredar a sala de aula, o que acarretou em denúncia federal. 
De posse dos argumentos de defesa, parti ao ínterim circunstancial da situação. Chegando lá, antes de falar, fui preso por antecipação, identificado como cúmplice e representante da bagunça deferida. Sem ação, e mal  interpretado, fiz justa a interrelação a mim concedida e dei ordem aos companheiros para que continuassem, agora na secretaria, o ato iniciado em sala de aula. Fizemos-lo. 
Depois de algumas noites na prisão, voltamos para casa, para cumprir a suspensão escolar em liberdade. Mais tarde, naquele mesmo ano, fomos condecorados pela ação que deu origem ao movimento que, adiante, seria conhecido como "Diretas Já".
Isso prova, de fato, que atitudes repentinamente consideradas radicais podem trazer benefícios a longo prazo, ora benéficas, ora não.    

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