Depois que saí da aula, fui direto para casa, me arrumar. Depois de muita insistência de minha mãe, decidi comer algo e, logo em seguida, sem perca de tempo, parti para a parada, esperar seu Zé; ele nunca se atrasava. Houve uma vez, quando ficou preso no trânsito. Tinha muitos carros na faixa de ônibus mas, mesmo assim, não se atrasou. Ele pilotou sobre as calçadas da rua. Seu Zé é sempre pontual.
Não demorou muito para que ele chegasse. Notei, de longe, que seu ônibus estava diferente: as portas estavam com uma cor estranha, um tom meio amarelado, diferente do que costuma ser, verde musgo; o letreiro onde fica o itinerário estava sujo, o que era raro de acontecer; uma das lâmpadas dos faróis dianteiros estava apagada, o que nunca acontecia, mesmo à luz do dia. As coisas não estavam normais.
Quando o veículo se aproximou mais um pouco, percebi que não era seu Zé quem dirigia. Eu deveria ter percebido pelo horário, 2 minutos depois do horário de sempre. Ao parar, o novo motorista logo me cumprimentou:
- Boa tarde, Paulo!
- Boa. O que houve com o seu Zé?
- Ele teve que resolver uns problemas pessoais. Acho que é coisa de família. Não pode vir hoje.
- Hum... Tudo bem. Pode me ajudar a subir?
- Posso sim! "Zezão" me fez boas recomendações sobre você.
- Obrigado!
Depois de estar no ônibus, fiquei imaginando o que deveria ter acontecido com seu Zé para ele faltar um dia de trabalho. Ele nunca faltava. Nunca! Por alguns instantes esqueci de Luana e fiquei fixado em seu Zé, tentando entender o que poderia ter acontecido.
Mas, não deveria ter sido nada de grave, caso contrário seu substituto teria me contado. Se bem que desde quando o conheço, não tenho muitas informações suas... Seu Zé não era de dar informação sobre si para estranhos; nem a conhecidos ou amigos.
Mas, enfim, ele deve ficar bem. Devo me concentrar em Luana e seu estado de saúde.
Não demorou muito até chegarmos à praça. Ela estava movimentada naquele dia. Acho que aquela era a primeira vez que eu a vi tão lotada. Até o parquinho estava abarrotado de crianças. A quitanda de dona Zaíra também estava tomada por fregueses. O campinho de futebol tinha crianças e adultos brincando. Os bancos, principalmente o que costumo sentar, estava pendendo de tanta gente sentada.
Aquele dia não estava normal. Fiquei me perguntando qual seria o motivo de uma praça, com um nome escroto, sempre pacata, sem muitos visitantes, em um dia aparentemente normal, estar tão alvoroçada de pessoas...
Depois de alguns minutos andando pela praça e procurando um lugar para sentar, apesar de eu já estar sentado, percebi que havia uma espécie de palco no centro da praça. Acho que deveria acontecer algum show ou algo parecido naquela tarde. Depois de rodar a praça toda e não encontrar um banco vazio, fui à banca de dona Zaíra:
- Boa tarde, dona Zaíra!
- Boa tarde, anjinho. Tudo bem?
- Tudo sim. Hoje está movimentado aqui, hein...
- Verdade. É por causa do show que vai ter aí.
- A senhora sabe de quem é o show? Quem vai cantar?
- Não sei ao certo. É uma moça que canta rock. Sua amiga, Luluzinha, gosta muito dela.
- Luana gosta dela?! Então ela está aqui? A senhora a viu?
- Hoje eu não a vi. Até achei estranho... Pensei que ela viria.
- Hum... Ok, dona Zaíra. Vou dar umas voltas e ver se a encontro. Até mais.
- Até, meu bem.
Depois daquele diálogo, saí como um louco rodando aquela praça procurando Luana. Se ela estivesse ali, tinha certeza que a encontraria. Fui em todos os lugares, desde os banheiros químicos até à borda do lago... Ela não estava em lugar nenhum. Certamente, não tinha ido ao show.
Voltei à parada de ônibus. Já passava das 18:00 e seu Zé, ops... o outro motorista estava quase para chegar.
Ao chegar em casa, passei alguns minutos triste, imaginando o quão estranho fora aquele dia:
seu Zé não foi trabalhar, a praça estava lotada por conta de um show que a Luana gosta e, mesmo assim, não estava lá... Era demais pra mim.
Enquanto eu me remoía tentando entender aquela ultrajante situação, minha mãe entrou no quarto, dizendo que havia alguém no telefone para mim. Como eu não tinha muitos amigos, logo pensei que fosse seu Zé, justificando sua ausência.
Ao atender o telefone, tive uma surpresa imensa:
- Alô, eu disse, na certeza de que seu Zé responderia do outro lado.
- Oi, meu anjo!
Imediatamente, reconheci a voz suave e envelhecida de dona Zaíra. Confesso que estranhei o telefonema, pois já passava das 20:00.
- Dona Zaíra! Tudo bem? Perguntei desconfiado.
- Tudo bem sim, lindo. Só liguei porque tem uma pessoa que quer falar com você...
Por mais que eu soubesse que seria impossível ouvir a voz de Luana do outro lado da linha, a surpresa foi maior:
- Alô, retruquei, esperando a resposta.
- Oi, disse a voz doce e macia do outro lado.
- Quem é? Perguntei.
- Você estava me procurando hoje pela tarde?
Naquele momento, fiquei paralisado. Eu não sabia o que dizer. Não sabia o que fazer. Era Luana!
No pânico do momento, não tive outra ação se não desligar o telefone. Minha mãe, assustada com minha cara de surpresa e pavor, perguntou o que tinha acontecido. Mal sabia ela que, na verdade, eu estava enfrentando o maior desafio de minha vida: falar, pela primeira vez, com quem nunca falei na vida, mas sempre amei.
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