Passava das 05:00 da manhã quando o alarme do seu velho e trincado Moto X disparou. Suas pupilas dilatadas demoraram cerca de 10 segundos para identificar que horas eram. Não tinha dormido bem na noite anterior. Quando enxergou o relógio marcando 05:30, tomou um susto: "vou perder o ônibus!" Pensou. Com a velocidade que jamais pensou possuir, correu em direção ao banheiro. Como era cedo, não se preocupou em pegar toalha, pois todos na casa ainda dormiam. Depois de banhar, verificou se a centrifugadora tinha secado devidamente as roupas que lavara na noite anterior. Infelizmente, seu casaco, companheiro de todas as viagens, ainda estava levemente úmido, dado a sua espessura, o que lhe rendeu, ainda, uns 30 minutos de atraso.
Depois de por todas as roupas na mala, vestiu-se a seu modo característico: calça jeans preta; camisa cor de vinho, gola pólo, dois números acima de seu tamanho; tênis social/esporte, preto e branco; pente modelo escovinha, vermelha, no bolso traseiro direito; carteira, abarrotada com algumas notas financeiras, no bolso traseiro direito.
Ao terminar todo o ritual, beijou cada um de seus quatro irmãos, ainda dormindo, despediu-se de seu pai, recebendo deste a tradicional benção, e partiu, rumo à parada de ônibus mais próxima de sua casa.
Como o fardo de suas duas malas mais a mochila de costas já lhe era farto, resolveu, ao invés de pegar transporte coletivo, pegar um táxi. Ao chegar no ponto, viu um lancheiro solitário, cuja bicicleta estava brutalmente abastecida com pastéis, coxinhas, pães-de-queijo e outras guloseimas, além da vasta quantidade de sucos.
Sem perder tempo, não titubeou:
- Bom dia! Cumprimentou, colocando as malas sobre o banco de espera.
- Bom dia! Disse o lancheiro, já descendo da bicicleta e abrindo a vitrine dos salgados.
- Veja-me um pastel de carne, por favor.
- Agora, patrão! Falou o vendedor, já com o pastel na mão.
Depois de comer dois pastéis, uma coxinha, um bolo e um copo de suco de acerola, pagou e solicitou um copo d'água.
- Quanto deu, senhor? Perguntou já de barriga cheia.
- Só R$ 7,00, amigo.
- O senhor tem água ai?
- Tenho sim, na hora. Falou alegre o lancheiro.
A terminar de tomá-la, viu, logo à sua retaguarda, três amigas, colega de classe, se aproximando.
- Oi! Disse, surpreso, já apertando as mãos das moças.
- Olá. Falou uma delas, aparentemente surpresa por encontrá-lo ali.
- Estão indo para o campus? Indagou, na esperança de que soubesse o horário do ônibus, já que, provavelmente, o pagavam todos dias naquele horário.
- Sim. Disseram as três, em uníssono.
- Pois vamos. Eu ia de táxi, mas aqui está muito demorado. Que horas passa o ônibus?
- Passa às 06:40, respondeu a mais jovem.
- Ótimo! Pois vou com vocês. Afirmou sorridente.
- E estas malas? Indagou a jovem mais velha.
- São minhas. Do campus, irei para o Rio de Janeiro com os colegas.
Todos saíram, rumo à parada de ônibus.
Depois de alguns minutos na ponto, chega um de seus amigos que, de igual, modo, também iria ao Rio.
- Fala nobre! Disse, em cumprimento ao colega que havia chegado.
- E aí! Respondeu, ainda com cara de sono.
- Preparado para a viagem? Retrucou, esperando uma resposta empolgante do colega.
- Oras!
- Pois se prepara, porque a viagem será longa.
- Isso ai.
Depois de alguns minutos, o ônibus chegou. Ambos estavam ansiosos para chegar ao campus e embarcar no veículo institucional rumo ao primeiro centro urbano brasileiro.
Ao chegarem no campus, dado o horário, poucas pessoas haviam ali. Apenas alguns alunos, esperando suas aulas, uns poucos servidores, preparando a votação que aconteceria mais tarde e, ainda, dois ou três servidores da limpeza, exercendo seu trabalho.
Aos poucos, mais alunos chegavam; alguns acompanhados pelos pais, todos aflitos, preocupados com a viagem dos filhos.
Muitos pais lhe entregavam os filhos como quem entrega um pote de ouro, recomendando mil e um cuidados. De fato, era uma responsabilidade muito grande.
Duas mães, em especial de um menino e uma menina, ressaltaram a atenção que seus filhos precisavam.
A mãe do menino reforçou as recomendações, alegando que seu filho era muito esquecido e que precisava de mais cuidados porque tinha chegado de uma outra viagem longa no dia anterior. Eram tantas recomendações que se fosse listá-las seria maior, em rolos, que a distância percorrida pela Tocha Olímpica.
A mãe da menina, por sua vez, pediu insistentemente que não tirasse os olhos de sua filha. Justificou que sua pequena era muito ouriçada e que, se houvesse oportunidade, ela poderia perder o controle por conta de sua euforia. Apesar de sua índole inocente, mais tarde, naquele mesmo dia, isso aconteceu.
Depois de infindáveis pedidos de atenção, chegou a hora da partida. Todos começaram a embutir suas enormes malas no bagageiro do ônibus. Algumas malas eram tão grandes que precisaram ser postas na horizontal, para caber.
Dentro do ônibus, com todos acomodados, foram dadas as diretrizes iniciais:
nada de andar, ou ficar em pé, no corredor, usar o cinto de segurança, não ficar de joelhos nas poltronas, etc.
No final das regras, foi feita uma oração, com fins de agradecimentos e, sobretudo, petição de proteção.
Parte o ônibus.
Nos primeiros momentos, os estudantes se detiveram em cantorias e brincadeira corriqueiras de viagens. Debates ardentes também foram digeridos até a chegada do almoço. Muitos, até o horário da refeição, dormiam seguramente, guardando, dentro de si, a ansiedade de chegar ao Rio.
Chega a hora do almoço. Muitos ainda estão sem fome, pois haviam muita comida no ônibus. Uma das estudantes, a saber, uma das mais adultas que, mesmo não aderindo à denominação "tia", era deste modo chamada, estava visivelmente preparada para aquela viagem. Trouxe consigo um verdadeiro estoque de comida. Desde um simples pão até um sanduíche completo havia no interior de sua caixa. Era comida suficiente para um batalhão de 50 homens.
Ao chegar no restaurante, todos estavam aflitos, pois, a julgar pela estirpe do local, a comida deveria custar muito caro.
Graças aos esforços dos presentes, o preço do self-service fora reduzido a todos os do ônibus, ficando, por cabeça, a R$ 20,00. Muitos alunos, ainda sem saber que este era o valor geral, abasteciam seus pratos moderadamente, objetivando gastar o mínimo possível. Quando o primeiro aluno pagou, os demais, que estavam na fila, retornaram às estufas de comida e encheram seus pratos a caráter nordestino, fazendo jus ao dinheiro pago.
Dois estudantes, a saber os dois lideres das instâncias das quais os alunos faziam parte, Grêmio e CRT, pareciam disputar entre si sobre quem comia mais. Seus pratos mais pareciam o Morro do Pão de Açúcar e o Monte Everest, respectivamente.
Depois de devidamente alimentados, todos voltaram ao ônibus, a fim de seguir viagem. Ainda havia muito a percorrer dali em diante.
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